Ano passado foi um ano bastante cheio: 2019 foi ano de Paris Brest, uma prova que eu sempre quis participar e pelo seu tamanho exigiu muito planejamento. Muita gente não sabe nem do que se trata, então deixa eu explicar um pouquinho.

Existe uma modalidade de ciclismo de longa distância organizada por uma entidade francesa chamada Audax Club Parisien. A modalidade é um misto de prova com cicloturismo, focado em longa distância e auto suficiência do ciclista. Aqui no Brasil a modalidade é conhecida popularmente como Audax, mas o seu nome oficial é “randonneur”.

As provas são de regularidade e não tem classificação: o primeiro e o último ciclistas que chegam ganham a mesma medalha. A ordem de chegada não tem a menor importância sendo o objetivo principal promover a superação de um desafio pessoal. As provas são classificadas pela distância, sendo a série completa como abaixo:

  • 200km, percorridos em até 13:30h
  • 300km, percorridos em até 20h
  • 400km, percorridos em até 27h
  • 600km, percorridos em até 40h
  • 1000km, percorridos em até 75h
  • 1200km, percorridos em temos que variam de 80 a 90 horas, sendo o Paris Brest uma das mais famosas

O PBP (como o Paris – Brest – Paris é conhecido) acontece a cada quatro anos. O último foi em 2015 então se eu não fosse agora em 2019, outra oportunidade somente surgiria em 2023. Para poder ir para a França e participar do PBP é necessário completar a série de provas até os 600km no ano da prova. Eu já pratico esta modalidade há bastante tempo, desde 2013 para ser mais exato, mas nunca havia conseguido completar uma prova mais longa que 200km. As poucas provas de 300km que eu havia tentado eu quebrei no meio do caminho por cansaço ou problemas no equipamento. Em todos os casos a causa real foi planejamento zero para essas provas mais longas. Assim em 2019 eu fiz um bom planejamento para que tudo desse certo.

As inscrições para o PBP tinham que ser feitas em Junho, sendo assim a série tinha que estar completa até 15/Junho/2019. Como eu nunca havia feito provas mais longas que 200km, resolvi ser bem agressivo no calendário, agendando todas as provas para o quanto antes para minimizar os riscos de não conseguir concluir alguma delas e consequentemente não conseguir carimbar meu passaporte para a França. Sendo assim agendei os 200km no fim de Janeiro/2019 e na semana seguinte já fiz os 300km. Deu tudo muito certo e as duas provas foram concluídas com tranquilidade. Depois farei um relato específico dessas provas, mas fazer as provas tão próximas foi ótimo, uma serviu de treino para a outra.

Os 400 km estavam agendados para meados de Março, num trajeto bem legal, bastante plano, mas com uma subida gigantesca no meio do caminho. Para os 400km a logísitica já começa a ficar um pouco complicada: eu precisava levar mais coisas para usar durante a prova (comida, ferramentas, roupas para o frio à noite etc…), já que o trajeto é bem mais longo e também a ida e a volta do local da prova são mais complicadas pois o tempo de prova é bastante mais longo. Para essa prova me juntei com alguns amigos ciclistas e alugamos uma casa por AirBnb em Itanhaém e fomos para lá. Enquanto eu pedalava, a turma ficou de boa curtindo um churras. Fiz a prova de baixo de uma chuva imensa, terminei absurdamente encharcado, bem dolorido por conta de toda a chuva mas muito bem fisicamente. Prova concluída e um passo mais próximo do PBP. Essa prova também merece um relato só dela, depois faço esse post.

Um mês mais tarde, era a hora dos 600km. As coisas estavam um pouco complicadas: as datas disponíveis eram poucas sendo a melhor data a de uma prova que largava as 22:00 de uma sexta-feira. Isso era bem complicado, todas as outras provas largaram bastante cedo, mas ainda assim me deram uma noite boa de sono. Largar as 22:00 significava trabalhar a sexta-feira o dia todo, ir para a prova e pedalar a noite toda sem dormir. Não ia ser fácil, ainda mais que o trajeto era bem montanhoso. Essa prova merece um relato só dela, mas o pior aconteceu: faltando uns 250km, meu joelho começou a doer absurdamente e tive que parar. Foi bastante complicado: joguei a toalha e comecei a preparar o que fazer. Precisava fazer os 600km e a única data disponível em São Paulo era alguns dias antes do prazo final para inscrição para o PBP, conclusão: se eu quebrasse de novo, poderia dizer adeus ao sonho da França.

Eu tinha duas opções: fazer a prova fora de São Paulo e lidar com toda a logística complicada ou treinar bastante, fazer em São Paulo e concluir nessa última chance. Era bem complicado, mas decidi fazer em São Paulo. A logística para fazer em outro estado seria muito complicada e muito provavelmente eu não conseguiria voltar ao trabalho na segunda-feira a tempo. Deu certo! No início de Junho fiz a prova, 600km de subidas e decidas, com uma noite bastante fria no meio. Concluí a prova com 2 horas sobrando. Finalmente, tinha concluído tudo o que precisava para classificar para o PBP. A partir de agora era continuar treinando e começar a preparar a logística para Paris. São muitos detalhes que não dava para deixar para a última hora.

Os dois meses antes da prova foram de muita ansiedade que controlei arrumando as coisas e comprando o que faltava. Depois de muitos preparativos e muita ansiedade embarcamos para Paris: uma viagem não só para a prova mas também para conhecer a cidade pela primeira vez!

Nos próximos posts vou contar as histórias de cada prova e de como foi a experiência do PBP. Fiquem de olho, logo tem mais!!!!